Rubens Lopez Drummond

Quando eu era criança acompanhava meu pai até os hangares da Base Aérea de Cumbica e brincava no T-6, no B-25 e no SH-1D. Eu sonhava todos os dias em pilotar uma daquelas máquinas voadoras que tanta empolgação me davam.
Meu sonho era ser piloto!
Passei no concurso de admissão para a EPCAR! Era 1971. Nos apresentaríamos em poucas horas no QG da Aeronáutica para entrar num dos ônibus com destino a BQ. Era tardezinha quase noite.
Eu morava na Base Aérea de Cumbica, em Guarulhos e meu pai, suboficial da Aeronáutica (SOQAv Drummond) não conseguia esconder o seu orgulho. A impressão que dava é que ele estava acompanhando o futuro Presidente da República ou, quem sabe, o futuro Ministro da Aeronáutica.
Minha mãe, Dona Carmen, se debulhava em lágrimas a cada cinco minutos, lembrando, a todo instante, para eu não tomar gelado, não me esquecer de olhar para os dois lados, antes de cruzar a rua, não andar com estranhos e muito mais.
Meus irmãos estavam tão apreensivos quanto eu, afinal era a primeira vez que um de nós saía de casa! Não sabíamos explicar os nossos sentimentos!
Entramos no Aero Willis 1961 bege e fomos em direção ao QG da Aeronáutica no Cambuci, de onde partiriam os ônibus para Barbacena, por volta de dez horas da noite. Por orientação da EPCAR não deveríamos levar dinheiro, nem roupa, com exceção de duas mudas para os exercícios de adaptação (tortura medieval) dos dias seguintes.
Lembro-me de que havia alguns oficiais e sargentos de BQ lendo as listas e chamando cada qual para o seu respectivo assento no ônibus. O ônibus começou a andar, em ala com os demais do comboio paulista, e percebi o rosto de meu pai, ainda explodindo de orgulho e o rosto de minha mãe inesquecivelmente banhado pelas lágrimas do segundo parto.
Acendi um cigarro, sem sentimento de culpa, agora não precisava mais fumar escondido, estava emancipado e me senti adulto, no alto dos meus quase 17 anos. A noite, caprichosa como só ela sabe ser na Fernão Dias, mostrava uma lua cheia prateada que indicava todas as muitas curvas e montanhas do interminável caminho.
Fizemos duas paradas, uma das quais em Lavras e outra em Três Corações.
Por volta de seis e pouco da manhã, um sol bem forte iluminava a EPCAR. A bandinha de música (a poderosa) tocava músicas alegres, na alegria de nos receber. E levantava o nosso astral. Fomos levados para o rancho e tomamos um café da manhã bem forte e variado.
Logo a seguir, no pátio em frente ao alojamento começaram a chamar um por um. Começamos a ser identificados por um número que nunca mais seria esquecido.
‘Vinte. Setenta e dois zero vinte! Rubens Lopez Drummond!’
‘Sou eu!’
‘Vai lá para dentro e aguarde do lado de sua cama’.
Enquanto as outras turmas estavam sendo formadas, eu permaneci na posição de sentido do lado da cama, escutando músicas do Michael Jackson que não paravam de tocar no gravador daquele japonês de Guarulhos, Fernando Kishi, sobrinho do seu Massami da Fotótica de Guarulhos. “Get to be there … Ben …”
‘Turma A, Sentido!’
Eu conhecia três pessoas na turma, O Manso (do colégio estadual de Guarulhos), o Moura (72-244) que estudou comigo em Guarulhos (Ginasial e Desenho Mecânico no SENAI) e o Savio (72-236) cujo pai sempre foi um amigo e companheiro de meu pai. Eu só refiz o contato com eles duas ou três semanas depois de ter chegado à EPCAR.
‘BQ, BQ, arrego para você, BQ, BQ, BQ, BQ, BQ, acorda recruta, seu efdêpê’).
‘Oi, eu sou o Rubens Drummond!’
‘Prazer, meu nome é Minelli’.
Minelli passava a ser o colega que nunca acordava com o toque de alvorada. Seu prazer era acordar com o aluno de dia, ou o oficial de dia. Nos finais de semana o camarada não saia da cama nem para almoçar.
Começamos com os exercícios físicos. Comi muito na reta. E que sol quente!
‘Paga dez! Paga 20! Paga 50!’
Me deram um palito de sorvete e me mandaram desenterrar o suposto navio, cujo mastro assomava do chão do prédio do comando. Alguns minutos depois o Oficial de Dia (Tenente Waleiko) ao me ver raspando o piso de concreto naquela posição ridícula me perguntou o que eu fazia. Quando expliquei perguntou se eu era maluco.
‘‘Paga 20!’
‘Espanta a águia aí, bicho!’ – e olha eu ali, de novo, pagando o maior mico, espantando aquela águia de concreto da Escola.
E adivinhem quem aparece de novo? O mesmo Oficial de Dia! Eu me senti o próprio otário!
‘Me dá um cigarro aí, bicho, e paga 30!’
Taco de ouro! Pagodes do William no Soraya! Olimpic! Mister Baboo!
‘Cheese miséria’ no Bactérias Bar, pão amanhecido com mortadela e queijo! Higiene precária.
Lambari torradinho no Picinini! VI (pular o muro da Escola, saindo sem autorização). Dora, Vovó, Rancho Alegre, 3 Moinhos, Beco da Lajinha – locais de menor aprovação.
‘Lindos passarinhos azuis, azuis da cor do manto de Nossa Senhora!’ – A Isabelinha sempre nos reconhecia e homenageava!
‘Abram alas agora, não deixem para depois, é o bicharal de 72!’
A competição esportiva ‘Lima Mendes’ era evento mais que emocionante.
‘Eu saio da escola, filo Coca-Cola, piruo uma vinte e me lembra você!
A rota é traçada pelo Imaculada, dobrando a esquina já posso te ver,
Oh Dooora, meu refúgio é você. Lá, lá, lá, lá, lá, lá”. Era a bela paródia da famosa ‘Angélica’ composta pelo Ramalho, na versão do Douglas e Ratão’.
Pôquer no banheiro: ‘aposto dez cigarros, seus dez cigarros mais uma bituca!’
Festival de músicas. Paródias! Capoeira no alojamento. Mestre Berimbau, o Sprovieri.
O Glauco faz a primeira voz que eu faço a segunda.
Até que chega o exame médico no Rio de Janeiro, ao fim do terceiro ano.
‘Você não pode ser aviador. Hipermetropia. Vinte e cinco centésimos é muito’.
Eu disse ao meu pai: ‘Vou pedir desligamento, não posso ser aviador e vou prestar vestibular para cursar uma faculdade de engenharia, qual é a sua opinião?’
‘Faça o que você acha que deve ser feito filho’. Lá dentro, ele dizia: ‘não sai não, por favor!’
Sim, o tempo passa bem rápido, mas as lembranças ficam.
Como aquela Escola foi importante para a minha formação moral e intelectual.
Que orgulho eu sentia cada vez que via ou escutava dizer de algum feito heroico de um de nossos irmãos de Barbacena – Savio e Hutten na Bósnia, Cambahuva casando-se de paraquedas no ar – passou até no Fantástico.
Que sofrimento incrível quando eu tomava conhecimento de algum acidente envolvendo um colega de 72!
‘Taifa, fiquei contente com a missa que você pediu para rezar na igreja da vila!’
Infelizmente, não tenho o dom literário do Ramalho, do Glauco, do Holanda ou de outros expoentes da Turma, mas achei que devia sair da moita por alguns instantes e escrever sobre aqueles dias.
Parabéns para todos nós!

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