Antônio Donizeti Sávio

“Atenção alojamento! Todos agora lá para o Colégio Agrícola! Tem gente nossa refém lá dentro e precisamos resgatar!”
Com esta frase, o Aluno de Dia, que era do terceiro ano, adentrou nosso alojamento do segundo ano, naquela tarde de domingo, dando a ordem para nos mobilizarmos rumo ao Colégio Agrícola de Barbacena.
Foi algo inusitado, pois uma das principais funções do Alunos de Dia era zelar pela manutenção da disciplina e da ordem, mas aquele veterano estava nos incitando a partir para uma ação de resgate de outros colegas. Tratava-se de uma convocação oficial ao combate. Assim nos parecia.
Os bailinhos de domingo à tarde eram uma tradição em Barbacena, como ocorria em muitas cidades. Não sei se ainda ocorrem nos dias de hoje. Em tais eventos, rapazes e moças flertavam com olhares furtivos, sorrisos, gestos, coisas que todos nós vivemos e que geraram várias canções sobre os amores da juventude em todas as línguas.
Todas as línguas? Sim!
Se quiserem comprovar o que digo, vejam no detalhe o que foram, por exemplo, os grandes sucessos da Jovem Guarda, Beatles, Elvis Presley e muitos outros artistas, pois a maioria das canções são sobre os amores da juventude. Em Barbacena um ingrediente específico temperava essa relação social. Nós, alunos da EPCAR, tínhamos que conviver com o ciúme dos rapazes da cidade.
Era algo compreensível e natural, pois forasteiros, que viveriam naquela cidade por apenas três anos, às vezes arrebatavam as donzelas que eram os amores não declarados de algum dos rapazes de Barbacena, a quem nos referíamos como “camofos”.
Há um filme antigo, que foi lançado no Brasil em 1982, com o título “A Força do Destino”, que retrata justamente esta relação entre os jovens de uma escola militar e os cidadãos locais. Quem se lembrar do filme, ou vier a assisti-lo, entenderá muito bem esta situação de ciúme dos rapazes locais contra os alunos da escola, seus concorrentes.
Mas, voltando àquele domingo à tarde, graças mais uma vez à oportunidade que tive de conversar de forma investigativa sobre isto com alguns outros nossos colegas, no churrasco havido em 1 de dezembro de 2019, no Clube de Aeronáutica, a encrenca havia começado na sexta-feira, dois dias antes daquele famoso domingo.
Colegas nossos haviam se estranhado com rapazes da cidade na sexta-feira à noite e os mesmos grupos vieram a se estranhar novamente no sábado em algum outro evento. Se chegaram às vias fato, eu não sei, mas o que quer que tenha ocorrido foi o suficiente para que o grupo dos “camofos” prometesse tomar providências caso qualquer aluno da EPCAR adentrasse alguns dos eventos similares à domingueira do Colégio Agrícola.
Foi assim que, ao anoitecer daquele domingo, fui engrossar as fileiras dos alunos de nossa escola, que rumavam ao Colégio Agrícola, onde eu nunca havia estado, mas vim a saber o endereço naquele dia.
Àquela época nosso efetivo era de quase mil alunos, mas não estavam todos presentes, pois aos finais de semana muitos viajavam para visitar seus lares. De qualquer forma, fiquei impressionado como nosso grupo aumentava à medida que nos aproximávamos do Colégio Agrícola. Quando consegui me acomodar em frente ao Colégio junto aos demais “EPCARianos”, estimei que nosso grupo chegasse aos 300. Sim, trezentos. A aglomeração chegava a atrapalhar o trânsito; então, certo veterano assumiu a liderança e ordenou:
Colegas nossos haviam se estranhado com rapazes da cidade na sexta-feira à noite e os mesmos grupos vieram a se estranhar novamente no sábado em algum outro evento. Se chegaram às vias fato, eu não sei, mas o que quer que tenha ocorrido foi o suficiente para que o grupo dos “camofos” prometesse tomar providências caso qualquer aluno da EPCAR adentrasse alguns dos eventos similares à domingueira do Colégio Agrícola.
Foi assim que, ao anoitecer daquele domingo, fui engrossar as fileiras dos alunos de nossa escola, que rumavam ao Colégio Agrícola, onde eu nunca havia estado, mas vim a saber o endereço naquele dia.
Àquela época nosso efetivo era de quase mil alunos, mas não estavam todos presentes, pois aos finais de semana muitos viajavam para visitar seus lares. De qualquer forma, fiquei impressionado como nosso grupo aumentava à medida que nos aproximávamos do Colégio Agrícola. Quando consegui me acomodar em frente ao Colégio junto aos demais “EPCARianos”, estimei que nosso grupo chegasse aos 300. Sim, trezentos. A aglomeração chegava a atrapalhar o trânsito; então, certo veterano assumiu a liderança e ordenou:
“Atenção, pessoal!”
“Não estamos aqui para causar mal a ninguém, mas também não queremos que ninguém cause qualquer mal a qualquer um de nós! Não sairemos daqui enquanto nossos colegas não puderem sair em segurança de lá de dentro!”
Houve adesão imediata de todos os trezentos, como se fôssemos os bravos guerreiros de Leônidas prontos para a épica Batalha das Termópilas, contra o tirano Rei Xerxes da Pérsia.
E nosso líder veterano então continuou com suas ordens:
“Atenção, pessoal, vamos liberar o tráfego desta rua! Vamos todos nos posicionar na calçada oposta ao Colégio!”
Parecia ordem unida, pois todos nos deslocamos para a calçada, ao que veio a mais importante das ordens de nosso líder:
“Não estamos aqui para nos intimidar! Eles precisam saber que estamos prontos para o que der e vier! Atenção: todos de peitos estufados, braços cruzados, cara de mau e em silêncio! Agora! Olhares voltados para o Colégio!”
Eu confesso que nem quando, muito anos depois, tive a oportunidade de voar caças supersônicos, eu me senti tão poderoso na vida! Era impressionante aquela imensa turma de jovens, com bom preparo físico que tínhamos, calada, com pose de brigões. Diz a lenda (pobre lenda, sempre coloco os exageros na conta dela) que a testosterona exalava seu vapor pelo ar, adocicada com o auxílio da adrenalina, substância que prepara os predadores para o ataque.
Aquele ajuntamento começou a atrair pessoas da cidade, pois o que se pressentia era algo muito grave prestes a ocorrer. As pessoas que moravam nas casas ao redor se amontoavam em suas janelas, de onde podiam ver aqueles bárbaros prontos para o combate.
Eis que então apareceram carros da polícia local e as viaturas da EPCAR com a famosa PA (Polícia da Aeronáutica). Houve negociações e uma pequena comitiva foi autorizada a se certificar que os alunos sairiam em segurança de dentro do Colégio.
Lá no churrasco, no Clube de Aeronáutica, obtive um meio valioso de informação: o Aluno Tadeu, que estava dentro do Colégio Agrícola.
Ele me disse que nada ocorreu lá dentro e que o que causou toda aquela agitação teria sido um trote.
O Tadeu foi interrompido no seu flerte que quase chegava ao sucesso, e teve que sair contrariado, rumo à EPCAR, que ordenou o recolhimento dos alunos. Ao retornarmos à EPCAR, tivemos que entrar, todo o efetivo, em forma, e faltas foram retiradas de forma rigorosa, mas as consequências não pararam por aí.
Na tarde do dia seguinte, segunda-feira, todos os alunos foram chamados para o Auditório, onde o Coronel Brasil, Subcomandante da EPCAR, faria uma preleção. Com grande inteligência, ele começou abordando o que representávamos como alunos da EPCAR: que éramos a nata da juventude brasileira, bem preparados, que de nós eram sempre esperadas atitudes cavalheirescas.
Quando já nos sentíamos como os seres mais importantes do planeta Terra, então, de forma perspicaz, o Cel Brasil mudou o sentido de sua preleção e nos fez sentir o quão grave teria sido aquela ameaça à cidade que tão bem nos acolhia.
Tínhamos que nos envergonhar e jamais permitir que aquilo ocorresse novamente. Não cabia ao perfil de um aluno da EPCAR ser agressivo. O Cel Brasil então se retirou e ficamos com o Ten-Cel Tigre Maia, Comandante do Corpo de Alunos, para tomarmos a segunda bronca.
O Tigre Maia começou falando de um filme que era muito famoso naquela época, na verdade um seriado semanal que passava na televisão, “Kung Fu”.
Kung Fu era um ser sereno, que meditava e falava palavras sempre sábias. Em sua sapiência oriental, o Kung Fu respeitava todos os seres vivos, de qualquer natureza. Então, assim como Cel Brasil havia, em um dado momento, modificado o seu discurso, o Tigre Maia também o fez.
“Mas não se esqueçam que apesar de ser esta figura pacífica, se alguém tentar tocar no Kung Fu, vai tomar a maior surra. Se acontecer de novo, é para reagir sim! Tem que quebrar tudo e mostrar que não se deve mexer com as pessoas erradas!”
Diz a lenda que Tigre Maia foi aplaudido de pé, que saiu carregado nos braços dos alunos, sob o canto de coros tipo “Bravo! Bravo!” (Mas há quem diga que não chegamos a tanto).
Em linguagem atual, eu diria que ele “lavou nossas almas”. Em linguagem atual, eu diria que, naquela tarde, mais uma vez, o Ten-Cel Tigre Maia foi o cara.
Sei que posso falar em nomes de todos, e com todo nosso respeito: “Valeu, Tigrão”.
No dia seguinte, o Jornal da Cidade publicou manchete com o título: “Índios da EPCAR x Índios do Agrícola”.

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