Ademir Massuia
Em 1972, havia trote dos mais antigos sobre os mais modernos e, às vezes, o abuso dos terceiranistas parecia insuportável. Assim foi que, em certo dia, o Ozon foi pressionado a remover a pomada Minâncora de seu rosto, porque “não era condizente com sua condição de cadete”. Ora, a pomada tinha por finalidade o tratamento de sua pele, nada mais.
Revoltado, o Ozon reuniu a Turma “J” e combinaram passar a Minâncora no rosto, todos eles. Era para dizer, de modo radical: “não aceitamos esse abuso”. O risco era grande, e todos poderiam ser punidos.
Todos poderiam suportar prisão de alguns dias, menos o Silas que estava com 29 dias de prisão e, com mais um dia, seria desligado da Escola. O risco era demasiando para ele. Entendendo a situação, o Ozon lhe disse que estava liberado de se juntar aos colegas, não devendo aceitar o risco de receber mais uma punição. Não havia razão que justificasse seu envolvimento.
Mas, não adiantou. O Silas se juntou à rebelião e se pintou. Cobriu seu rosto escuro com a pomada. E se tornou a figura “mais rebelde”, porque se destacava dentre os demais com seu metro e noventa de altura. Para ele mais valia a lealdade aos colegas, do que a sua permanência na EPCAR.
Subiam a escada, em direção ao Pátio. A “J” unida, e o Ozon, preocupado, ainda tentava demover o Silas de seguir o grupo. Aí, recebeu a resposta radical e definitiva: “Para de encher o meu saco! Já decidi. Já lhe disse: estou com a Turma”.
Já se vão quase cinquenta anos, desde aquela manhã da Minâncora. A rebelião foi esvaziada, o Silas concluiu o curso da EPCAR, e quase tudo caiu no esquecimento, mas a lealdade que havia naquele jovem permanece na memória e assim continuará enquanto a Turma de 1972 for lembrada”